quarta-feira, abril 05, 2006

Memória

A Revisitação da Proeminência
Faz-nos seres frágeis.
Para quê a memória? Para quê a paciência?
Para ti? Para mim? Para sermos memoráveis?

Percepcionando, memorizo.
Vejo e tenho de reter.
Sinto e quero esquecer.
Esquecer? Não é acto preciso.

A memória que salta é recalcada.
É perdida.
É sonhada e esquecida.
É perdida e encontrada.

domingo, março 19, 2006

AUTORitário

“Sabemos agora que um texto não é feito de uma linha de palavras, libertando um sentido único”
Roland Barthes, in Morte do Autor

Acabei de ler um livro. Fui lendo aos poucos e fui descodificando por entre palavras, frases, parágrafos, o seu sentido. No fim de o ler, surgiram perguntas pertinentes e cada vez mais perturbadoras: “Será que percebi o livro? Será que recebi a mensagem que o Autor me queria passar?” Na realidade, eu percebi-o; na realidade eu descodifiquei a mensagem e obtive uma percepção, um entendimento. Mas seria esse entendimento desmantelado por mim que o Autor queria que eu interpretasse?
Uma Obra de Arte, seja ela escrita, pintada, tocada ou cantada, é um texto que necessita de ser experiênciado. É nela que o Sujeito se manifesta de uma maneira única e individual mas pensada para o colectivo, para o receptor, para o leitor. Note-se que falei em Sujeito. E o Autor? Ao Autor apenas o encontramos na capa de um livro, numa legenda de um quadro, num manual de música; ele nunca se encontra no texto em questão. E ao não darmos importância ao Autor, vamos olhar para o texto com uma grande abertura e um largo horizonte, vendo nele um Sujeito e não um Autor, um Guia e não um Ditador. Em cada palavra vamo-nos descobrindo, vamos descodificando a nossa mensagem, vamos construindo e fechando, assim, o nosso texto. A capacidade de nos abstrairmos do Autor, torna-nos leitores libertos e capazes de decifrar na subjectividade e na própria polissignificação, um caminho diferente a seguir. Temos escolhas ilimitadas. Somos nós, leitores, os autores dos textos que lemos.
“O nascimento do leitor tem de pagar-se com a morte do Autor”. É através da frase de Barthes que denotamos a importância do Leitor face ao Autor. É sem a imposição de um AUTORitário que podemos nascer e fazer chegar, até nós, a nossa significação. O sentido único de um texto é visto, então, como o trancar das interpretações que possam surgir do Leitor. É o fecho intencional do Autor. Mas a construção de sentido não é unilateral mas plural. Não está no Autor. A escrita é o que faz com que o texto funcione perante o Leitor, acabando por agregá-lo. A Escrita vai assim moldando-se, permitindo que haja sempre coisas novas a descobrir, tornando-se ela mesma protagonista e a verdadeira importância para o Leitor.
No tecido textual vamos desfiando significados, cosendo nelas as vivências e as interpretações do Leitor. Agora entendo o livro que li. Agora percebo o porquê de outras pessoas que o leram o perceberam de diferente forma. Vejo agora, o ridículo da minha professora de Português do décimo ano, corroída pela sociedade e pela própria noção de Autor, na interpretação de um texto subjectivo. Ouço a frase dela: “Está errado. Não era isso que o Autor queria transmitir.” Mas afinal o que seria? Agora entendo porque me libertei. Entendo porque vi na acção que é a Escrita, o Sujeito do Autor, que já lá não está. Nós construímos o texto que o Sujeito nos vai narrando. E já não é do Autor, é nosso... Não somos nós que o fechamos?

domingo, dezembro 18, 2005

Nós



Final, início.
Chão, Tecto.
E é para o precipício
O mal que te remeto.

Frio, calor.
Sol, Lua.
Contrários de fervor?
Verdade nua e crua.

Significado, significante.
Ouço-te, falo-te.
Mas é tudo importante,
Ou calo-me? Calo-te.

Silêncio, grito.
Sozinho, Irmandade.
Estou bem? Estou aflito?
Não sei. É a verdade.

Mal, bem.
Vestido, nu.
Contradiz? Detém?
Sou eu. És tu.

segunda-feira, novembro 28, 2005

Saudade



Vazio.
Incompleto...
Frio.
Já não sou língua,
Sou dialecto.

Silencia...!
Uma voz estranha.
Denuncia.
A maldição portuguesa
Em mim entranha.

Grito amarrado.
Dor.
A sete chaves fechado
Falo calado,
Chorando por amor...

Partiste.
Foi verdade,
Que mentiste!
O sentimento quebrou
Com a palavra saudade.

quarta-feira, novembro 23, 2005

Caligrafia Pensada

Penso naquilo que vou escrever...
Um pensamento liberto no vazio. As palavras vão fluindo agregadas a imagens da minha cabeça. Uma escrita pensada no abstracto da simplicidade, saída de uma reflexão ecoada. Este eco da escrita só me faz sentir frustrado perante o segundo plano da escrita. O pensamento engana-me... modifica as minhas percepções dos signos escritos. Tudo se torna diferente daquilo que visiono na espontaneidade cerebral.
Aquilo que eu escrevo é uma Caligrafia Pensada, rascunho da minha alma; A escrita do pensamento deturpa aquilo que realmente penso... mas a bruma do pensar torna-se palpável e visível! Assim é realmente melhor... já consigo perceber-me no emaranhado interior e reconhecer-me na organização da escrita. Por momentos iludo-me... e volto a pensar... e volto a escrever... com mais uma Caligrafia Pensada.

domingo, novembro 13, 2005

Sentindo o amor quente

É quente este amor...
Amor que não sossega.
Torna-se hipótese cega,
Deixa o vazio, deixa a dor.

É quente este corpo...
Corpo que te reclama.
Corpo que já não é corpo,
É uma alma que te ama.

É quente este olhar...
Olhar que te fixa, te mira.
É e num fogo que te retira,
O amor que te quero dar.

Tudo é quente quando se ama...
O frio mar, o frio céu.
O calor já não é meu
É do meu ser que quer amar.

quarta-feira, outubro 12, 2005

No Nevoeiro


No Nevoeiro:
Não te vejo porque me cegas.
Vais-me rodeando,
Por todos os lados,
Em círculos quadrados.
Vais-me cercando.
Com gotículas ácidas que me roem,
Com o sabor básico me destroem.
Vais-me afogando.
Entro na humidade,
Sinto formas, sombras,
E és tu que me encontras
Nesta escuridão de breu.
Vais-me escondendo.
E é aí que não te vejo
Que te sinto e te beijo,
Numa sombra colorida,
E como num ser sem vida
Te tento agarrar
E te volto a perder. Já não te vejo.
Vais-me magoando.
Largaste-me no nevoeiro...
Fiquei sozinho,
Rodeado de sombras...
Estou cercado, sinto-me afogado.
Estou escondido, sinto-me magoado.
Afinal contigo me encontrei
Para me voltar a perder...
No nevoeiro...